Esmaltes e cosméticos podem acelerar o processo da puberdade nas crianças

A puberdade é um fenômeno fisiológico natural do corpo, no entanto, ela pode se manifestar precocemente em alguns indivíduos por fatores genéticos ou externos. Pais e responsáveis precisam ficar atentos aos sinais dessas transformações corporais das crianças para evitar as consequências diante do diagnóstico positivo e da falta de tratamento adequado.

02/12/19 – 11h19

A transição da fase infantil para a adolescência é um marco do desenvolvimento humano. Conhecido como puberdade, esse fenômeno inicia-se aos oito anos em meninas e aos nove em meninos. Porém, quando o começo se dá antes dessas idades é sinal de disfunção e, por isso, pais e responsáveis precisam estar atentos às mudanças físicas das crianças e buscar orientação médica.

“Esse fenômeno decorre da ação de hormônios sexuais que são produzido nas meninas, principalmente, pelos ovários e, nos meninos, principalmente, pelos testículos”, explica a endocrinologista e professora do Departamento de Medicina Clínica da Universidade Federal do Ceará (UFC), Eveline Gadelha.

Aos seis anos, a estudante Inessa Maria, atualmente com 20, foi diagnosticada com puberdade precoce. O primeiro indício foi percebido por sua mãe ao sentir um cheiro forte nas axilas e o surgimento dos seios. Por estar atenta às mudanças corporais da filha, em seguida a mãe procurou a pediatra, a qual encaminhou a paciente ao endocrinologista.

Os sinais físicos observados pela mãe de Inessa são apenas algumas dessas mudanças. De acordo com Eveline, os pais e responsáveis precisam estar sempre atentos ao surgimento de pelos, crescimento das mamas femininas e o aumento do comprimento peniano nos meninos. Outras características, como a mudança na voz, crescimento acelerado da estatura, dos pés, das mãos e dos músculos também servem de alertas para os pais e responsáveis.

Causas

A puberdade precoce é multifatorial, além de questões genéticas, como no caso de Inessa. Agentes externos também costumam exercer influência nos níveis hormonais do indivíduo e podem elevar os riscos de desenvolvimento prematuro, entre eles estão a obesidade e a exposição a determinados compostos químicos, a exemplo do bisfenol A, presente em plásticos e embalagens, bem como os ftalatos e parabenos, comuns na composição de esmaltes, maquiagens, cosméticos e antitranspirantes.

“A absorção desses compostos pode ser por meio da pele, da ingestão ou do ar”, explica Eveline. A endocrinologista ressalta ainda que o contato de crianças com mulheres em reposição hormonal, na versão gel, assim como com pessoas que manipulam o uso de anabolizantes, também podem desencadear o problema.

Outro composto apontado por Eveline como ‘vilão’ são os agrotóxicos, presentes na maioria dos alimentos. A médica cita ainda um estudo realizado no México que correlaciona a exposição a alguns pesticidas com o desfecho das gestações das trabalhadoras do campo. “Foi observado ainda que as gestantes, com maior exposição, no caso dos filhos do sexo feminino, tiveram a puberdade mais precoce e, os do sexo masculino, mais tardia”, compara.

Aos nove anos, a mãe de Alice Santos percebeu sinais que indicavam o início da puberdade na menina. Apesar de ter começado no período considerado normal, a mãe da pequena foi orientada, pela endocrinologista que acompanhou o diagnóstico, a evitar o consumo de carne de frango e ovos provenientes de granja, optando pelas versões caipiras.

Ao notar esses sinais nas crianças, portanto, é imprescindível o acompanhamento médico, especialmente de um endocrinologista, responsável pelo estudo dos sistemas hormonais. Para obter o diagnóstico concreto, são realizados vários exames, como dosagem hormonal e de imagem, a exemplo do raio X de punho para verificar a idade óssea comparada à cronológica, além de consultar o histórico clínico individual do paciente.

Tratamento

Com o resultado em mãos, o próximo passo é tratamento, que varia de acordo com o origem do problema. A mais comum é feita à base de medicação para interromper o processo de maturação sexual, até que a criança tenha idade suficiente para esse desenvolvimento. “O tratamento é de, no mínimo, dois anos e pode realmente segurar a idade óssea”, diz a médica.

No caso de Inessa, o tratamento foi iniciado alguns meses depois do diagnóstico e durou pouco mais de três anos, até ela atingir a primeira menstruação. A medicação é disponibilizada gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), no entanto, a estudante teve dificuldades até conseguir. “A fila de espera chegava a ser de dois anos, e a minha médica disse que se eu não começasse logo, eu iria menstruar aos oito anos, ou seja, quando chegasse minha vez o tratamento não serviria mais”, relata.

Cada injeção custava, à época, R$ 600, e a dose precisava ser mensal. Pelo alto custo, a compra pela família de Inessa era inviável. Mesmo fazendo o tratamento, Inessa ainda sente as consequências da puberdade precoce. A jovem desenvolveu depressão e transtorno de ansiedade, atestada por um psiquiatra, além dos problemas hormonais, como o alto nível de prolactina no sangue, hormônio responsável por estimular a produção de leite materno na gravidez. Quando não há gestação, a menstruação da mulher fica desregulada e pode causar infertilidade.

A estudante também apresenta hipotireoidismo, disfunção na tireoide que afeta o metabolismo, causando fadiga, ganho de peso, alterações no humor, além do aumento de chances de ter doenças cardíacas. Doutora Eveline também aponta para a possível baixa estatura desses indivíduos, já que eles atingem um estirão do crescimento antecipado e param de crescer mais rápido.

“Outro efeito é o risco de abuso sexual pelo desenvolvimento precoce, além do encurtamento de uma fase tão importante para o amadurecimento do indivíduo. A criança, que tem uma infância mais curta, está mais vulnerável a ter problemas psicológicos”, orienta a especialista.

 

Diário do Nordeste

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