Vazamento de dados expõe perseguição sistemática aos uigures na China

Documentos secretos do governo chinês revelam detalhes da lavagem cerebral de minorias muçulmanas em prisões no noroeste do país. “China Cables” revelam sistema de controle físico e mental que Pequim negava.

26/11/19 – 10h16

Documentos secretos do Partido Comunista da China revelam em detalhes como as minorias religiosas no noroeste do país são perseguidas – em particular os uigures, que são enclausurados em campos. Os “China Cables” foram publicados pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ).

Estes documentos mostram que os campos designados por Pequim como “instituições de educação continuada” na Região Autônoma de Xinjiang são, na realidade, campos de reeducação isolados e rigorosamente vigiados. A revelação contesta as afirmações do governo de que a permanência nos campos era voluntária. Via de regra, os internos eram detidos por pelo menos um ano.

Especialistas estimam que haja mais de 1 milhão de cidadãos nos campos, em grande parte sem julgamento. Afetados são acima de tudo membros da minoria muçulmana dos uigures.

O pacote, contendo registros dos anos 2017 e 2018, foi enviado por uigures exilados ao ICIJ. Mais de 75 jornalistas de 17 parceiros de serviços de imprensa em todo o mundo avaliaram os documentos, entre eles profissionais das emissoras públicas alemãs NDR e WDR e do diário Süddeutsche Zeitung. Vários despachos foram assinados por Zhu Hailun, vice-líder do partido em Xinjiang.

Estima-se que 10 milhões de uigures islâmicos vivam na China, a maioria em Xinjiang. A maioria é etnicamente relacionada aos turcos e se sente econômica, política e culturalmente oprimida pelos chineses han, o maior grupo étnico da China, compondo quase 92% da população, que detêm o poder no país.

Depois de assumir o poder na China em 1949, os comunistas incorporaram ao país a região do Turquistão Oriental, também conhecido como Uiguristão. Essa região geográfica da Ásia Central engloba o Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Turcomenistão e Uzbequistão. O governo de Pequim acusa grupos uigures de separatismo e terrorismo.

Documentação da opressão

O pacote de documentos “China Cables” inclui um guia para a operação dos campos, quatro notificações para um banco de dados de vigilância e uma sentença contra os uigures.

Mais de duas dezenas de regras para operação dos campos estão listadas. Todos os quartos e corredores devem estar estritamente fechados. Também se determina que os internos devem ser monitorados durante a ida ao banheiro, o sono e as aulas, segundo noticiou o NDR. Os detidos também seriam avaliados por um sistema de pontuação, estando sujeitos a castigos.

Ao ser questionada pelo Süddeutsche Zeitung, a embaixada da China em Berlim afirmou que os campos eram medidas para “combater o terrorismo e para a desradicalização, bem como educação e treinamento profissional”.

Segundo os registros dos “China Cables”, numa única semana de junho de 2017 as autoridades chinesas prenderam e enviaram um total de 15.638 uigures para os campos. Também se comprova que a China monitora e espia os uigures que residem no exterior. Consulados e embaixadas coletaram informações para esse fim, se os suspeitos entrassem na China, seriam detidos.

Ainda segundo os documentos, as autoridades operam um banco de dados de vigilância que incorpora informações de interrogatórios, programas computadorizados de vigilância e dados das muitas câmeras de vigilância distribuídas em Xinjiang.

Para o preenchimento do banco de dados não são registrados apenas papéis de identificação e itinerários de viagens, mas também são enviados funcionários do governo a aldeias e famílias, a fim de descobrir o que se pensa sobre o Partido Comunista. Os habitantes são então catalogados em “categorias de perigo”.

“Genocídio cultural”

O cientista político Adrian Zenz, considerado um dos maiores especialistas do mundo na situação em Xinjiang, teve acesso aos “China Cables”. Eles “provam em detalhes que o governo realiza uma campanha de reeducação em massa nesta região desde 2017, sob a classificação de formação profissional”, avalia.

Ao mesmo tempo, “os documentos também dão uma certeza chocante de que tudo é uma campanha sistemática e, acima de tudo, secreta”. Trata-se de um “internamento sistemático de toda uma minoria etno-religiosa”, que em termos de extensão é “provavelmente a maior desde o Holocausto”. Para Zenz, o que se vê na região pode ser formulado como um “genocídio cultural”.

Mais recentemente, o jornal americano New York Times publicou um artigo sobre diversos papéis do Partido Comunista da China, nos quais era especialmente tematizada a base política da repressão às minorias religiosas na China.

Segundo os documentos, a repressão aos muçulmanos foi ordenada pelo próprio presidente chinês, Xi Jinping. E na medida não deveria ser mostrada nenhuma piedade, segundo um discurso realizado por Xi em 2014 e citado pelo New York Times.

Representantes de uigures exigem sanções

Após a publicação do New York Times, o presidente do Congresso Mundial dos Uigures, Dolkun Isa, pediu sanções contra a República Popular, conclamando a comunidade internacional a agir: “A China deve ser responsabilizada”, declarou ao jornal alemão Die Welt. “Não basta condenar as ações da China contra os uigures. Muitas empresas alemãs continuam fazendo negócios com a China.”

Devido às medidas de Pequim em Xinjinag, os Estados Unidos recentemente incluíram 28 empresas e organizações governamentais chinesas em sua lista negra.

Isa se refere como “campos de concentração” à instalações cuja existência Pequim sempre negou. Segundo ele, os direitos da minoria muçulmana são violados há anos, mas, desde a posse do presidente Xi em 2013, sua situação “se deteriorou enormemente”.

O secretário-geral do Conselho Central dos Muçulmanos na Alemanha, Abdassamad el-Yazidi, fala de uma “limpeza étnica inacreditável”. “Os ‘China Cables’ revelam um sistema de violações dos direitos humanos de proporções inacreditáveis, que a comunidade internacional e o governo federal [da Alemanha] não podem ignorar. Os interesses econômicos nunca devem se sobrepor aos direitos humanos.”

 

Deutsche Welle

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