Aparelhos eletrônicos modernos possuem baixa reciclabilidade

O lixo eletrônico é um problema global, enquanto a mineração de materiais necessários para fabricação de dispositivos tecnológicos causa devastação. Quanto mais avançado o aparelho, mais difícil de ser reciclado.

22/11/19 – 10h00

Dentro de smartphones, tabletes, computadores e até televisores estão escondidos uma gama de materiais valiosos. E, no mais tardar quando o dispositivo eletrônico deixa de funcionar, esses tesouros permanecem trancafiados, esquecidos e estragando numa gaveta ou na vastidão de um aterro sanitário.

O Electrical Waste Recycling Group (Grupo de Reciclagem de Lixo Eletrônico) do Reino Unido busca recuperar o máximo possível dos aparelhos antigos coletados de comerciantes, lixões e empresas que efetuaram uma atualização de seus dispositivos.

Caminhões carregados com eletrônicos redundantes estacionam do lado de fora da instalação do grupo localizada numa antiga fábrica têxtil perto da cidade de Huddersfield, no norte da Inglaterra. Uma vez dentro do complexo, os aparelhos eletrônicos são classificados e lançados em máquinas enormes e barulhentas que retiram as fiações e trituram os metais.

Materiais como o cobre são reduzidos a partículas e fundidos – em seguida, vendidos a comerciantes de metais e, eventualmente, acabam sendo utilizados na fabricação de novos produtos. As baterias são separadas e isoladas para não causarem curtos-circuitos e pegarem fogo.

Equipes de funcionários sistematicamente desmontam aparelhos antigos de televisão de tubo. A gerente de conformidade do Electrical Waste Recycling, Jane Richardson, estima que cada membro da equipe desmantele cerca de 80 televisores por dia.

“Quando fazemos excursões escolares, muitas crianças dizem que nunca viram uma dessas televisões antigas antes”, disse Richardson.

As crianças em idade escolar estão familiarizadas o suficiente com as novas telas planas – categorizadas também em cestos ao lado de outros dispositivos e peças. Mas sua mistificação com modelos mais antigos é uma prova da rapidez com que atualizamos a tecnologia em nossos lares.

Obsessão pela atualização

Embora todos os materiais preciosos neles contidos, os eletrônicos de consumo são essencialmente descartáveis. “No momento, a maioria dos eletrônicos tem vida linear, e não circular”, disse Elizabeth Jardim, do Greenpeace, em entrevista à DW. “Os dispositivos são usados e, em alguns anos, a maioria se torna lixo.”

A instalação em Huddersfield recebe anualmente cerca de oito mil toneladas métricas de lixo eletrônico. Mas isso representa apenas uma gota num oceano, em comparação com as mais de 44 milhões de toneladas métricas que são criadas anualmente em todo o mundo, segundo estimativas da ONU.

E os aparelhos que provavelmente atualizamos com maior frequência – os telefones celulares – são notadamente os menos presentes na instalação de reciclagem em Huddersfield.

“Os smartphones são realmente difíceis de reciclar e, no final das contas, os fabricantes não se envolvem com a comunidade de reciclagem”, disse Shaun Donaghy, diretos de operações do Electrical Waste Recycling, em entrevista à DW. “O final da vida útil dos produtos não lhes interessa.”

De acordo com um relatório emitido pelo Greenpeace em 2017, a energia consumida anualmente na produção de smartphones aumentou de 75 terawatt-hora (TWh), em 2012, para cerca de 250 TWh em 2016. Os smartphones também contêm metais de terras raras, cuja extração carrega um preço alto em várias maneiras.

Resíduos, veneno e abuso

Um novo relatório da Sociedade Real Britânica de Química (RSC) descobriu que um smartphone médio contém 30 elementos diferentes. Outras estimativas apontam que este número pode chegar a até 75 elementos em alguns modelos de ponta. Tântalo, ítrio, índio e arsênico são ingredientes essenciais que podem acabar dentro de 100 anos. Índio, por exemplo, é crucial para telas sensíveis ao toque e painéis solares.

“É transparente, adere ao vidro e realmente não encontramos nada que possa fazer o que ele faz”, explicou Elisabeth Ratcliffe, da RSC. “Trata-se de um dos elementos mais raros da Terra – um subproduto da mineração de zinco. Para obter alguns miligramas de índio, é necessário extrair um quilograma de zinco.”

A extração dessas reservas indescritíveis é cara, consome muita energia e deixa um rastro de resíduos tóxicos. A grande maioria dos metais de terras raras é extraída na China, onde as fontes de água em Jiangxi, Mongólia Interior e Shandong ficaram poluídas.

Metais de terras raras são uma categoria específica de 17 elementos químicos diferentes. Assim como outros materiais-chave da tecnologia (cobalto, estanho, tungstênio, tântalo e ouro), estes também têm sido associados a operações exploradoras que usam trabalho infantil, financiam conflitos na África e causam doenças respiratórias entre os mineradores.

 

Deutsche Welle

Compartilhe:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *