Iraque continua sob protestos ‘até a queda do regime’

O movimento de protesto começou em 1º de outubro e foi marcado por confrontos entre policiais e manifestantes que deixaram oficialmente 257 mortos.

04/11/19 – 10h00

Um mês após o início das manifestações no Iraque para pedir “a queda do regime”, novos bloqueios de estradas foram registrados neste domingo, enquanto as escolas e administrações públicas permaneciam fechadas para manter a pressão sobre o governo.

No entanto, desde 24 de outubro, as manifestações cada vez mais numerosas têm sido mais tranquilas, organizadas por estudantes e sindicatos.

Os manifestantes voltaram a pedir por um movimento de desobediência civil, enquanto os sindicatos de professores, engenheiros, médicos e advogados declararam uma greve geral que paralisa Bagdá e o sul do país.

As promessas do governo de reformar o sistema de contratação e previdenciário não enfraqueceram os protestos.

“Iniciamos uma campanha de desobediência civil porque estamos fartos das mentiras do governo e das supostas reformas”, disse Mohamed Al Asadi, que se manifestava em Nasiriyah (sul), onde as principais estradas e pontes foram cortadas.

Em Bagdá, grupos de jovens manifestantes estacionaram seus carros cortando as estradas e houve protestos de estudantes e crianças saindo de escolas vazias em direção à Praça Tahrir, o epicentro da contestação, constataram jornalistas da AFP.

Em Diwaniya (sul), uma faixa na sede do conselho provincial dizia: “Fechado por ordem do povo”.

Em Kut, ao sul de Bagdá, Tahsin Naser, um manifestante de 25 anos, disse à AFP que cortar estradas serve para enviar “uma mensagem ao governo”. “Ficaremos nas ruas até a queda do regime e a partida dos corruptos e dos ladrões”, acrescentou.

Em Al Hilla, na província da Babilônia, no sul de Bagdá, a maioria dos funcionários públicos está em greve, segundo um jornalista da AFP. Os manifestantes pedem que a greve seja mantida “até a queda do regime”.

Em Basra, no sul do país, as escolas públicas não abriram pela primeira vez desde o início do movimento. E nas cidades xiitas sagradas de Kerbala e Najaf, mais e mais estudantes religiosos participam das manifestações.

Além disso, os manifestantes continuam bloqueando a estrada que leva ao porto de Um Qasr (sul), o que pode atrapalhar as importações, principalmente de alimentos.

O momento é histórico no Iraque porque, pela primeira vez desde a queda de Saddam Hussein, em 2003, um movimento de protesto é espontâneo e liderado pelos sindicatos.

Na época de Saddam, apenas manifestações de apoio ao presidente ou ao seu partido Baas eram autorizadas.

Após a invasão dos Estados Unidos que causou sua queda, as manifestações tornaram-se demonstrações de força dos diferentes partidos do país.

Mas como observa Harith Hasan, pesquisador do Carnegie Center, “a sociedade civil, após anos de autoritarismo do Baas e confessionalismo, recupera a vida”.

No entanto, os manifestantes são ameaçados por campanhas de intimidação e violência, denunciadas pela comunidade internacional.

Houve ataques à mídia e blogueiros, além de sequestros de ativistas políticos. Neste domingo, a comissão governamental de direitos humanos anunciou o sequestro de Saba Mahdaui, um médico que distribuía remédios entre os manifestantes.

Na Praça Tahrir, os confrontos noturnos deixaram um morto e dezenas de feridos, segundo fontes médicas.

A polícia utiliza bombas de gás lacrimogêneo dez vezes mais potentes do que no resto do mundo, capazes de fraturar o crânio e os ossos, segundo a Anistia Internacional (AI).

 

Diário do Nordeste

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