Artigo – Sucessão de Roberto Cláudio custa caro ao Conjunto Ceará

26/09/19 – 10h57

Confira o que diz Joatan Freitas, Professor na Secretaria da Educação do Ceará; Doutorando e mestre em Educação (Uece) e integrante do S.O.S Conjunto Ceará sobre a atual situação do bairro:

O prefeito Roberto Cláudio (PDT) tem se mostrado avesso ao diálogo racional com os setores organizados do Conjunto Ceará em relação ao desenvolvimento sustentável da comunidade. As intervenções da Prefeitura de Fortaleza no bairro têm sido conduzidas à revelia de qualquer planejamento estratégico e distante de uma harmonia desejável para com as reivindicações históricas dos movimentos sociais que atuam há décadas no local.

As consequências da postura política autoritária e guiada exclusivamente por interesses eleitorais de representantes da Prefeitura de Fortaleza, tem custado um alto preço ao futuro do Conjunto Ceará. Preocupados apenas em atender aos seus cabos eleitorais e aliados partidários, os representantes da Prefeitura têm causado estragos irreversíveis à cultura e à organização urbanística do bairro. Basta lembrar a mudança do nome da AV. B realizada à revelia da comunidade por iniciativa de um outro apoiador do Prefeito e com sua anuência. Observe-se também a desorganização urbana, a insuficiência na saúde pública, a ocupação indevida de espaços públicos por comerciantes com autorização e/ou omissão da Regional V e dos órgãos de fiscalização da Prefeitura, custando a perda de imensas áreas de uso e convivência comunitária dos moradores.

A atitude oportunista e eleitoreira de representantes da Prefeitura tem gerado situações ridículas e revoltantes, como é o caso da Reforma do Polo de Lazer do bairro. Roberto Cláudio tentou atribuir a conquista da obra a seu apoiador, um político sem nenhuma identificação com a luta histórica de mais de 20 anos travada pelos grupos culturais, coletivos e movimentos sociais que reivindicam a reforma e requalificação do espaço. Nesse caso, as fake news ficam claras e inegáveis diante da incapacidade do apoiador do prefeito de ter qualquer protagonismo ante a crise que paralisa a obra.

Essa postura gera desgaste político para o Governo do Estado que não consegue concluir a obra devido às ingestões eleitoreiras de representantes da Prefeitura, sendo que esta é apenas parceira do Governo estadual e não poderia estar atribuindo paternidade falsa à reforma. Entretanto, o que importa para a comunidade é o diálogo participativo, a inclusão dos empreendedores no projeto com a devida conclusão da Reforma do Polo de Lazer e não as práticas politiqueiras de cabos eleitorais em nome da Prefeitura.

Ultimamente, um dos maiores descasos da Prefeitura foi a transferência da feira de carros usados da Parangaba para o Conjunto Ceará, sem consulta à comunidade e sem estudo sobre os danos sociais e ambientais. A feira foi colocada diretamente em cima de nascentes de água natural de uma área de preservação e de uso institucional (uso não comercial), local que abrigava a última grande reserva de vegetação nativa do Conjunto Ceará.

Uma feira de carros usados que já foi retirada das margens da lagoa da Parangaba por ser nociva ao meio ambiente e ao ordenamento público do local, e por isso, rejeitada por todas as outras comunidades (mais atentas) para onde tentaram levá-la. Se agisse democraticamente e respeitando a comunidade, Roberto Cláudio saberia que historicamente o movimento sociocultural do bairro defende a requalificação dessa área como espaço verde para convivência comunitária, prática de caminhadas e preservação do meio ambiente, com projeto de iluminação, urbanismo e estruturação de um miniparque ecológico para conservar o que resta de vegetação nativa e as nascentes de água natural.

Mas, o prefeito não dialoga e muito menos consegue imaginar que a comunidade tenha intenções tão civilizadas. Ele só quis livrar a Lagoa da Parangaba dos impactos negativos da feira de carros usados e achou que seria uma boa ideia empurrar o problema para o Conjunto Ceará. Afinal, sabia que os seus apoiadores e cabos eleitorais sairiam em defesa dessa irresponsabilidade ambiental, tentando convencer a comunidade de vantagens que, na verdade, se anulam diante dos prejuízos econômicos, culturais, sociais e ambientais.

O resultado da ação antiambiental da Prefeitura se faz sentir nos impactos negativos causados à região. São milhares de metros quadrados de terrenos públicos pertencentes à coletividade, e que estão sendo invadidos por comerciantes de carros usados e outros negócios. Estão se apoderando de graça (“tipo 0800”) de uma das áreas mais valorizadas do bairro, erguendo estruturas de tijolos e metal, soterrando fontes de água, destruindo vegetação nativa. Há também invasores mais antigos que já se encontravam no local que passaram a ampliar as suas invasões e a negociar parte das terras que ocuparam para abrigar os veículos e negócios da feira. Tudo isso feito bem “debaixo do nariz” dos fiscais e gestores públicos da Prefeitura de Fortaleza que fingem que nada de errado está acontecendo e deixam a comunidade indefesa diante da espoliação urbana desenfreada.

Diante de tudo isso cabe se perguntar: E as “lideranças comunitárias”? Várias das referências comunitárias conhecidas, estão abertamente encobrindo e até mesmo defendendo as posturas antidemocráticas e desrespeitosas da Prefeitura para com a comunidade. Algumas dessas pessoas estão, inclusive, tentando se aproveitar eleitoralmente da situação, visando votos ao tentar convencer a todos de que as invasões do espaço público são melhores do que o estado de abandono em que se encontravam. Como se não fosse papel do poder público, justamente, dar um destino social para essas áreas e não permitir a invasão por empresários e comerciantes, até de outros bairros. O discurso do desenvolvimento do comércio local não se sustenta diante do fato de que a maioria dos ocupantes dos citados terrenos levam a maior parte dos lucros para longe do bairro. E se eles e seus clientes compram uma coxinha ou um prato de alimento, ou um pão na padaria da esquina aos nossos comerciantes, o que representa isto em comparação às invasões de terrenos que estão entre os mais valiosos do Conjunto Ceará?

Portanto, é preciso observar, refletir e participar das discussões e mobilizações do S.O.S. Conjunto Ceará para se informar, formar opinião própria e atuar na defesa da comunidade que está sendo espoliada por atitudes autoritárias e politiqueiras de uma gestão que não respeita o cidadão, deixando consequências urbanísticas e ambientais, muitas delas, irreversíveis também para o futuro da cidade.

 

Joatan Freitas

Doutorando e mestre em Educação (Uece). Especialização em Ensino de História (FFB). Graduado em História (UECE). Professor na Secretaria da Educação do Ceará. Ex-assessor técnico do gabinete do Governador do Estado do Ceará, com função na Coordenadoria dos Direitos Humanos (2012-2013).

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