Pacientes enfrentam filas, falta de médicos e de remédios em Caps de Fortaleza

Além de sofrerem por estarem doentes ou por verem familiares com problemas de saúde mental, dezenas de pessoas precisam madrugar em busca de senhas, medicamentos ou consultas e ainda saem sem atendimento.

26/08/19 – 11h20

Levantar cedo não é novidade para a rotina de José Francisco Ribeiro, 61, acostumado às manhãs de trabalho na construção civil. A novidade é quando ele precisa acordar de madrugada em busca de uma chance para se tratar, na expectativa de conseguir senha para ser atendido a tempo. Tal realidade é compartilhada por José e muitos outros pacientes e seus familiares que buscam atendimento nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) Gerais de Fortaleza.

O Diário do Nordeste foi a cinco dos seis Caps Gerais, ao longo da semana, e acompanhou o dilema de pacientes em busca de tratamento. Além do sofrimento que passam por precisarem de tratamento para doenças de saúde mental – ou terem parentes adoecidos –, em várias unidades, a reportagem encontrou problemas como a falta de psiquiatras, de medicamentos, além das longas filas.

Há dias em que a fila do lado de fora da unidade no bairro Bom Jardim começa por volta de 3h. “Depois de muita luta, consegui marcar pra hoje, pra conseguir ver o médico, um laudo e a receita. Cheguei aqui antes de 6h, pra pegar a ficha. Já tinha duas filas grandes aguardando. Muita gente desistiu do atendimento, foi embora. Tô perdendo um dia de serviço aqui”, conta José Ribeiro, que buscava a receita para o tratamento da esposa.

A esposa de José não toma o medicamento de forma regular há cerca de um ano, e depende de doações de amigos para ter acesso aos comprimidos. “Em casa, é só eu e ela. Eu sou pai, mãe, marido, sou tudo dela. Ela sente tontura e falta de tato nas mãos. Eu que faço almoço, janta… A roupa ela ainda lava, mas o resto tudo sou eu”, lamenta José.

Na mesma unidade, às 10h, a dona de casa Tainá Batista, 23, estava à espera de uma consulta com um psicólogo para acompanhar seu diagnóstico de transtorno afetivo bipolar. “A pessoa tem que chegar às 3h pra conseguir atendimento. É uma demanda muito grande, pra muitos pacientes. Tem pessoas que chegam aqui já em crise, precisam ser internadas. Cheguei 3h40 pra pegar a senha e ainda tô aguardando”, relata.

Tainá iniciou o tratamento no Bom Jardim em 2017 e observa que o serviço vem piorando.

“Há dois anos, o atendimento era muito prático, você chegava e já agendava. Agora, não. Tem que chegar de madrugada pra conseguir uma senha pro acolhimento”.

Foi o caso de Francisco Carlos da Silva, 51. Ele chegou à unidade às 4h, e já encontrou a fachada tomada pela fila. “Vim aqui atrás do medicamento para a minha esposa. Disseram que não tem, desde o dia 15 que não chegou. Ela toma quetiapina, 200 miligramas, não pode ficar sem”. Uma caixa com 30 comprimidos custa R$ 340. As senhas começaram a ser distribuídas no Caps às 8h, e Francisco foi informado que só deveria ser atendido às 13h.

Demora

Um paciente do Caps Geral Dr. Nilson de Moura Fé, no bairro Aldeota, não teve a mesma sorte. Ele chegou à unidade por volta de 9h, na terça-feira (20). “A atendente mandou voltar amanhã, 7h. Disse que as senhas de hoje acabaram”, relata. Ele pediu à reportagem para não ser identificado.

De acordo com o coordenador das Redes de Atenção Primária e Psicossocial da Secretaria Municipal da Saúde (SMS), Rui de Gouveia, tanto os Caps como as unidades de atenção primária à saúde não devem trabalhar com senhas.

“Quando acontece, a gente vai até a unidade e conversa com a pessoa que coordena para saber o que está acontecendo”. Ele afirma que, em alguns locais, a distribuição de senhas ocorre por escolha dos próprios pacientes, por uma “questão cultural”. “Muitas pessoas chegam no local mais cedo para não ficar para trás. Mas a pessoa pode estar lá atrás na fila e ser prioridade. A prioridade é de quem, clinicamente, precisa do atendimento naquele momento”, diz.

No Caps Geral da Messejana, o policial Evandro Andrade, 42, teve de passar por filas logo cedo em busca de clozapina, remédio de alto custo utilizado no tratamento de seu irmão, diagnosticado com esquizofrenia. “Já fiquei aqui desde madrugada, e o remédio ainda não tinha chegado. Ainda estou esperando”, diz.

A família de mais um dos pacientes do Caps de Messejana, que prefere não se identificar, tenta receber a medicação quetiapina (200 miligramas) há mais de dois meses. No entanto, está em falta e, segundo os funcionários da unidade, não há nenhuma previsão para reposição do estoque.

“Minha mãe recebeu a receita há dois meses, mas até agora não conseguimos adquirir o medicamento. Fizemos todo o procedimento, nos cadastramos no Caps, precisamos ir lá várias vezes. Mas no dia de receber, o remédio acabou. Depois pediram pra entrar em contato pra ver o dia de receber. Ligamos todo dia, mas a resposta é a mesma: ‘tá faltando, não tem previsão’. É muito difícil porque precisamos comprar duas caixas todo mês para fazer o tratamento e não é barato”, comenta.

Já o coordenador esclarece que os medicamentos de alto custo são fornecidos pelo Ministério da Saúde. Segundo ele, há um cadastramento feito no sistema de controle de medicamentos do Órgão, através de um laudo de remédios de alto custo, que é preenchido pelo médico do Caps.

“O que vem acontecendo é um atraso do Ministério da Saúde e, recentemente, mudanças de padronização de medicamentos, o que leva a ter que modificar os laudos de medicamentos de alto custo para que as pessoas não fiquem sem receber”.

Já no Caps Geral Prof. Frota Pinto, no bairro Rodolfo Teófilo, a demora na marcação de consultas é a principal reclamação. Um usuário do Conselho Local de Saúde, que preferiu não se identificar, informou que 2.176 pacientes com prontuários abertos ainda não foram atendidos por psiquiatras na unidade.

“Eles chegam, são examinados para saber se o perfil bate com o atendimento do Caps, o prontuário é aberto e eles entram numa ‘fila de espera’, aguardando uma ligação para marcar a consulta. E isso vem se acumulando de quatro a cinco anos”, explica.

Números

A reportagem procurou a Secretaria Municipal da Saúde para esclarecer os dados informados, e a Pasta disse que os números não remetem à realidade da SMS. “Não é possível informar o número com exatidão porque ainda não foi concluído o processo de migração para o prontuário eletrônico, mas muitas pessoas já passaram por consultas ou não precisam mais do atendimento”.

Em relação à expansão dos serviços, para atender à demanda excessiva, Rui de Gouveia informa que foram feitas renovações de convênios. “Tivemos concurso recente, profissionais foram empossados e lotados nas unidades. Infelizmente, nem todos resolveram continuar no concurso. Faremos um novo concurso em dezembro priorizando essas áreas com deficiência de profissionais”.

 

Diário do Nordeste

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